05 novembro 2016

Aquarela


Tenho visto muita agitação em torno de acontecimentos racistas nas mídias. Penso que a questão racismo em si é mega-ultra complicada. E gera muito mais reflexão. Muito mais do que um mero post. 
O racismo é uma defesa. Nos defendemos daquilo que não nos é familiar. Daquilo que entendemos como diferente. E essa defesa pode vir de muitas formas. 
Assim, antes de lidarmos com nosso consciente, lidamos com nosso insconsciente. Sim, olha que coisa, podemos ser conscientemente não racistas e inconscientemente racistas.
Podemos ter atitudes racistas sem querer.
Tendemos a banalizar traços culturais como forma de piada. E ninguém escapa. É sotaque de alemão, dizer cabelo ruim, puxar os olhos com os dedos... Atitudes que fazemos no dia a dia e nem nos apercebemos que podem segregar alguém. Magoar alguém.
E esse mecanismo rege um monte de outros tipos de segregação que não abrangem apenas a cor ou os traços preponderantes de um povo. 
Isso vale para gênero, se você usa tatuagem ou não, o seu peso e como você se veste.
Claro que existem os conscientemente racistas, que foram educados para segregar deliberadamente aqueles que lhe são diferentes. E aqui diferentes entende-se como inferiores. 
Mas raiva não se concerta com raiva. 
Fato. 
Racismo se concerta com educação. E boas doses de amor ao próximo. Tolerância gera tolerância. 
Sempre haverá o racismo inconsciente, pelo menos em um primeiro momento, mas isso não impede que eduquemos nossas crianças para identificá-lo e combatê-lo. E que devamos fazer o mesmo com nós mesmos. 
Uma aquarela. É o que somos enquanto raça humana. E isso é lindo. Se uma paleta tivesse uma única cor seria no mínimo chato. 
Façamos o possível para lidar com o diferente, sem desmerecê-lo com alegria ou desprezo. A piada só é engraçada quando ninguém é atingido por ela. Tem muita gente se autopromovendo por aí criando piada em cima dos outros. E sem saber que uma piada pode ser uma forma de agressão. 
Sei que chegaremos lá. 
Acredito no ser humano, antes de tudo.


11 outubro 2016

Centro do universo umbilical


Costumo dizer que ser o centro de tudo e ter amor próprio não são a mesma coisa. Nem de longe. 
Explico. 
A maioria dos problemas vem do fato de estarmos extremamente focados em nós mesmos, na nossa perfeição, no que gostaríamos que acontecesse conosco, no que o outro deveria fazer por nós. Mas isso não quer dizer amar-se. 
Quando focamos demais em nós mesmos, olhando apenas para o nosso umbigo, nos tornamos reclamildos, ou seja, passamos a desconsiderar o outro na relação. As crianças tendem a fazer isso bastante, os adolescentes em alguns momentos, por pura imaturidade. E isso é ok nessa fase. Cabe ao mundo mostrar a eles que não é bem assim. 
O problema é quando isso ultrapassa a juventude e vem se instalar na vida adulta. 
A pessoa que se vê como o centro vê tudo pela sua perspectiva, que nem sempre é a melhor ou a mais saudável. Torna-se cansada, irritada, superfocada em seus problemas. 
Amar-se é bem diferente. Amar-se é enxergar o outro sem misturar-se. É entender as suas necessidades e as dos demais, sem considerar uma mais importante que a outra. É estabelecer uma harmonia de sou e estou nas relações, respeitando a si e ao outro. Amar-se é gratidão, pelo que você é, pelo que o outro faz por você, pelo que a vida te permite evoluir em sabedoria e afeto por si e pelo próximo. 
Amar-se é uma tranquilidade que brota no peito e extravasa a volta, onde ser feliz pelo que se é, pelo que o outro é, resulta em liberdade. Onde todos somos importantes. 
O amor faz conta de multiplicação. Quem se ama, ama o outro na mesma proporção. 
Em uma época onde a busca pelo amor próprio virou moda, amar-se virou item indispensável. E consumimos pilhas a pilhas de informação a respeito. E muitas vezes confundimos amor próprio com desprezo por aquele que não nos valorizou. Hashtag beijinho no ombro.
Mas não sabemos que o que procuramos está dentro de nós, em um espaço quente e confortável chamado intimidade. E que sentimentos como raiva, desprezo e frustração só nos afastam disso. 
Quando fazemos as pazes com o que somos e com o que o outro é, criamos uma intimidade gostosa com nós mesmos, uma harmonia precisa entre ser e estar no mundo. 
A tolerância vem dessa fórmula bem bolada, onde nosso amor próprio supera expectativas infundadas e defesas exageradas, nos conectando ao mundo com sabedoria e felicidade, apenas pelo fato de existir. 
Se amar é mais simples do que parece. Como tudo o que importa na vida.